O PRÍNCIPE VEIO À CIDADE
Existe uma energia que jorra de Bonnie ‘Prince’ Billy que parece atingir o centro da concentração de quem o escuta. Não poupa as emoções nem a razão do frágil receptor, que na sua cadeira recebe um golpe certeiro, como se fosse confrontando com tudo aquilo que queria ter esquecido. Não se poderá chamar o sentimento vivido de dor porque da dor não advém prazer mas talvez lhe possamos tratar por suave melancolia, doce amargura ou de amiga escuridão. Quem optou por assistir ao concerto do norte-americano Bonnie ‘Prince’ Billy (Will Oldham) na passada noite de 23 de Outubro, no Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães, arriscou-se a mais que um simples espectáculo, arriscou-se a um encontro consigo próprio. E não foram poucos os audazes espectadores – foi um grande auditório muito bem composto que recebeu a personagem de ‘Prince’, assim como os seus companheiros Angel Olsen (voz), Emmett Kelly (guitarra e voz), Danny Kiely (contrabaixo) e Ben Boye (teclados).
Falamos em personagem porque Bonnie Billy é uma personagem criada por Will Oldham, músico, actor, poeta, enfim…artista, que concentra em si centenas de histórias e variadíssimos temas que, na verdade, fazem de nós aquilo que somos: o amor, a família, o sofrimento, a inspiração, a liberdade, o desejo etc. Há então um sentimento de familiaridade, mesmo para aqueles que nunca ouviram falar de Bonnie e o escutam pela primeira vez, com o seu misto de folk, country, indie rock e post-punk e com o seu princípio de: “do-it-yourself punk aesthetic and blunt honesty”. E já que falamos em primeira vez começamos pelo primeiros acordes do espectáculo – “No Match”, o tema que abre o novo trabalho de Bonnie intitulado “Wolfroy Goes To Town” e que abriu então a performance – um sincero lamento, uma confissão de impotência que demonstra desde logo a excelente qualidade do som no grande auditório.
O belíssimo “Love Comes To Me” é o tema que se segue, remontando ao álbum “The Letting Go”, apoiando a face da sua beleza na palma da mão do dueto de voz masculina/feminina protagonizado por Bonnie e Angel Olsen, toda ela vestida de preto, à semelhança de Bonnie, que trouxe o seu fato e sapatos negros para, quem sabe, condizer com a cor do palco, com a cor dos seus poemas ou com a grandeza do espectáculo.
Grandes são sem dúvida as sombras dos músicos que se espalham nas paredes do grande auditório do CCVF (sobretudo a de Danny e de seu contrabaixo), mas é leve o som dos instrumentos e dos temas, “I Don’t Belong To Anyone” (do álbum “Beware”) e “Beast For Thee” (do projecto Superwolf, de Bonnie e Matt Sweeney) flutuam livremente no ar em direcção incerta.
Já “I See A Darkness” regista o primeiro ataque de entusiasmo incontido do público da noite, um dos melhores e mais conceituados temas de Billy, que só por si já merece a compra do bilhete. Ainda detemos o sabor de redenção e de salvamento quando chega “ After I Made Love To You” em tom jazzístico, é o orvalho a cair nos ombros nus, cereja no topo do bolo.
“Pushkin” e “New Partner” revisitam os projectos Palace Brothers e Palace Music respectivamente, e Bonnie Billy vai-se multiplicando em agradecimentos às pessoas do CCVF e a todos os responsáveis por mais uma visita a Portugal. É um Bonnie menos comunicativo que em outras ocasiões (onde se encontrava a solo e com mais necessidade de comunicar) mas com o mesmo humor de sempre. Lá vai catando gargalhadas com tiradas como: temos sorte em não sermos o Khadafi ou o vosso problema é o dinheiro, dêem-mo a mim e eu resolvo-vos os problemas. Confessa o gosto que tem por camisas compradas no Porto e pela beleza do país e lamenta a chuva, pedindo a alguém que faça uma dança que a afaste.
Deixa um obrigado ao público por ser tão silencioso e maduro e deixa mais temas. Do novo “Wolfroy Goes To Town” (que coloca o foco nas vozes, tanto na sua como a dos seus companheiros) ouvimos o sussurrante “Black Captain”, o single “Quail and Dumplings”, que promete melhores dias que estes dias difíceis de crise e de fome, e “Time To Be Clear”, com Angel a encher os seus pulmões e a explanar a sua voz.
Aplausos de pé, saída da banda do palco e um regresso informal de Bonnie Prince já em t-shirt e de boné para mais um tema: “You Want That Picture”, onde se ouve em forma de resumo: “I stood very still in the night, and I looked at the sky, and knew someday I'd die, and then everything would be all right, it's all right, and everything comes down to this” e só nos resta concordar que sim, que a vida é dura, que somos simples mortais e que tudo o que existe é isto, aqui e agora, mas está tudo bem, vale bem a pena, como valeu bem a pena este belo concerto.
Falamos em personagem porque Bonnie Billy é uma personagem criada por Will Oldham, músico, actor, poeta, enfim…artista, que concentra em si centenas de histórias e variadíssimos temas que, na verdade, fazem de nós aquilo que somos: o amor, a família, o sofrimento, a inspiração, a liberdade, o desejo etc. Há então um sentimento de familiaridade, mesmo para aqueles que nunca ouviram falar de Bonnie e o escutam pela primeira vez, com o seu misto de folk, country, indie rock e post-punk e com o seu princípio de: “do-it-yourself punk aesthetic and blunt honesty”. E já que falamos em primeira vez começamos pelo primeiros acordes do espectáculo – “No Match”, o tema que abre o novo trabalho de Bonnie intitulado “Wolfroy Goes To Town” e que abriu então a performance – um sincero lamento, uma confissão de impotência que demonstra desde logo a excelente qualidade do som no grande auditório.
O belíssimo “Love Comes To Me” é o tema que se segue, remontando ao álbum “The Letting Go”, apoiando a face da sua beleza na palma da mão do dueto de voz masculina/feminina protagonizado por Bonnie e Angel Olsen, toda ela vestida de preto, à semelhança de Bonnie, que trouxe o seu fato e sapatos negros para, quem sabe, condizer com a cor do palco, com a cor dos seus poemas ou com a grandeza do espectáculo.
Grandes são sem dúvida as sombras dos músicos que se espalham nas paredes do grande auditório do CCVF (sobretudo a de Danny e de seu contrabaixo), mas é leve o som dos instrumentos e dos temas, “I Don’t Belong To Anyone” (do álbum “Beware”) e “Beast For Thee” (do projecto Superwolf, de Bonnie e Matt Sweeney) flutuam livremente no ar em direcção incerta.
Já “I See A Darkness” regista o primeiro ataque de entusiasmo incontido do público da noite, um dos melhores e mais conceituados temas de Billy, que só por si já merece a compra do bilhete. Ainda detemos o sabor de redenção e de salvamento quando chega “ After I Made Love To You” em tom jazzístico, é o orvalho a cair nos ombros nus, cereja no topo do bolo.
“Pushkin” e “New Partner” revisitam os projectos Palace Brothers e Palace Music respectivamente, e Bonnie Billy vai-se multiplicando em agradecimentos às pessoas do CCVF e a todos os responsáveis por mais uma visita a Portugal. É um Bonnie menos comunicativo que em outras ocasiões (onde se encontrava a solo e com mais necessidade de comunicar) mas com o mesmo humor de sempre. Lá vai catando gargalhadas com tiradas como: temos sorte em não sermos o Khadafi ou o vosso problema é o dinheiro, dêem-mo a mim e eu resolvo-vos os problemas. Confessa o gosto que tem por camisas compradas no Porto e pela beleza do país e lamenta a chuva, pedindo a alguém que faça uma dança que a afaste.
Deixa um obrigado ao público por ser tão silencioso e maduro e deixa mais temas. Do novo “Wolfroy Goes To Town” (que coloca o foco nas vozes, tanto na sua como a dos seus companheiros) ouvimos o sussurrante “Black Captain”, o single “Quail and Dumplings”, que promete melhores dias que estes dias difíceis de crise e de fome, e “Time To Be Clear”, com Angel a encher os seus pulmões e a explanar a sua voz.
Aplausos de pé, saída da banda do palco e um regresso informal de Bonnie Prince já em t-shirt e de boné para mais um tema: “You Want That Picture”, onde se ouve em forma de resumo: “I stood very still in the night, and I looked at the sky, and knew someday I'd die, and then everything would be all right, it's all right, and everything comes down to this” e só nos resta concordar que sim, que a vida é dura, que somos simples mortais e que tudo o que existe é isto, aqui e agora, mas está tudo bem, vale bem a pena, como valeu bem a pena este belo concerto.