RUSSIAN CIRCLES – EMPROS (2011)
Acontece algumas vezes. Neste caso bastante cedo. Chegando aos 6 minutos e 50 segundos de “Mlàdek”, o segundo tema de Empros, está já o caldo entornado. O trabalho de um crítico torna-se complicado quando ele tem de dar o braço a torcer à banda em questão, por não encontrar palavras para traduzir o que sente, e só lhe resta pescar na sua cabeça por adjectivos, mas os únicos que lhe ocorrem são todos redundantes, como os mais que batidos genial, fenomenal ou extraordinário. Por isso preparo o leitor/ouvinte apenas para esse momento: baixe o volume da sua aparelhagem, e tenha extra cuidado se estiver a conduzir, pois a tempestade sonora vai ser brutal (perdoe-me de novo a redundância). “Mlàdek” advém de Tomas Mlàdek, o condutor de autocarro na tour europeia deste bravo trio de mosqueteiros de Chicago. Curiosamente tem um início quase que à Broken Social Scene, e vai culminar numa erupção como já não ouvíamos desde os 9 minutos e 25 segundos de “Ghost Trail” dos Cult Of Luna.
Já o tema de abertura, “309” – o mais cru e visceral do álbum – coloca o ouvinte em sentido, e vai ao encontro da descrição do press release do disco: “o álbum mais pesado dos Russian Circles até à data”. A intenção da banda era tecer em Empros a mesma intensa teia sonora que caracteriza os seus concertos, com dinâmicas mais construtivas e pontes dramáticas entre as músicas. O objectivo foi claramente atingido. Em Empros os temas sucedem-se graciosamente, como um livro que se desfolha lentamente, uma página que dá lugar a outra, tão cativante e fascinante como a anterior. Tudo nele foi escrito e desenhado ao pormenor. Luz e trevas, belo e sombrio, tudo se balanceia num Yin e Yang perfeito.
“Schipol” é a benção dos raios solares depois do dilúvio, e as cordas da passagem para “Atackla” a silenciosa batalha de um alpinista entre a neve feroz. “Batu” testemunha o talento do baterista Dave Turncrantz e “Praise Be Man” com o baixista Brian Cook na voz, fecha o disco em beleza, como alguém que entrou no escuro de um túnel e à sua saída encontrou, nada mais nada menos, que a redenção.
Empros, à semelhança do seu belíssimo antecessor Geneva (de 2009) foi produzido por Brandon Curtis (produtor dos Interpol). Não é tão imediato como Geneva, mas levanta a fasquia ao fundir a precisão ganha no seu predecessor, a fúria dos primeiros trabalhos e uma nova aura de mistério que certamente os caracterizará no futuro. Empros é o quarto e mais novo filho dos Russian Circles, e quer ser o menino bonito, o melhor deles todos até agora. O seu nome vem do grego, significando algo como em frente, e este é, sem margens para qualquer dúvida, um passo em frente para os Russian Circles: um pequeno passo para uma banda (que ao contrário do que o nome indica nunca andou aos círculos mas sempre em frente) e um grande passo para a humanidade amante de boa música.
