Thursday, December 15, 2011


Tom Waits – Bad As Me (2011)


Um dos corações ébrios e uma das almas inquietas mais respeitadas do mundo da música está de volta. Dispensando apresentações, Tom Waits, um dos nossos avôs cantigas preferido, regressou com este trabalho intitulado Bad As Me. Isto só de si constitui uma boa notícia, mas o que o leitor quer mesmo saber, ao espreitar este texto, é se este regresso vale a pena (se está a altura do espólio de obras construído até à data) ou se ele é mau como o nome indica. Não vale a pena criar suspense e dar a solução às escondidas mais para a frente algures, entre as floridas linhas desta crítica. A resposta é simples e sai de seguida: sim, ele é bom.
Bad As Me é a primeira colecção de material novo em sete anos (não contamos com o triplo álbum de temas perdidos Orphans: Brawlers & Bastards) mas tem na sua génese os suspeitos do costume: Keith Richards, Flea, Marc Ribot, David Hidalgo e, sobretudo, Kathleen Brennan, a sua esposa – parceira habitual de Waits no crime da composição e produção.
Se Bad As Me fosse um vinho seria certamente um vinho do Porto. Waits envelheceu bem e entre devaneios (ouça o tema inicial “Chicago”) e baladas (escute o mariachi de “Back In The Crowd”) Bad As Me soa selvagem e doce ao mesmo ao tempo. É um álbum que se bebe de um trago, cria euforia nos sentidos e suscita alguns calafrios de tontura. Por vezes parece que estamos num filme de Fellini ou de Kusturica, o álbum é estranho (como Waits bem nos habituou), mas a curta duração dos temas e o seu acerto nunca nos deixa mal dispostos: ficamos antes constantemente naquele estado ideal, de bem-estar inocente.  
Tom Waits revisita os seus lugares comuns – o amor, o desejo, o lamento, a liberdade (atente a “Get Lost”) – e as suas sonoridades características – o experimentalismo, o rhythm & blues, o jazz, o rockabilly, folk. A novidade na bela receita da sua bebida parece ser a voz: ele puxa por esta como se puxa pela última gota no fundo da garrafa (os falsetes acompanhados de ska em “Talking at the Same Time” estão aí para comprovar o que digo), usando-a ao mesmo tempo como um dócil veículo de destilação para corações solitários (em “Pay Me”).
Bad As Me leva o mesmo carimbo que as dezenas de álbuns anteriores de Tom Waits. É um sabor do passado mas que possui, ao mesmo tempo, um gosto fresco, a presente, como se existisse um Porto vintage do século XXI. "Well it’s hard times for some, for others it’s sweet, someone makes money when there’s blood in the street...well we bailed out all the millionaires, they got the fruit, we got the rind”: estas são frases intemporais, mas parecem que nunca fizeram tanto sentido como agora. O seu autor também não é de agora mas de sempre, um músico intemporal que não cansa e que não sabe fazer música má. No final de contas Tom Waits não é assim tão mau como pensa.